Papai subiu no telhado

Pedro voltou a dar trabalho pra dormir.
Mesmo depois que a gente colocou o colchão quadrado no chão ele tem acordado desesperado pela mamãe.
Ontem choveu um bocado aqui. Finalmente. Junto com a chuva parece que veio um sono bom.
Criança dormindo, chuva caindo, sabadão e madrugada boa pra dormir um pouco mais que de costume (o que significa ir além das 6 da manhã).

Soninho
barulinho de chuva
criança dormindo
barulinho de chuva
sábado
barulinho de chuva
barulinho de chuva
barulinho de chuva

– FLÁVIO DO CÉU! – Elaine na porta do quarto com as mãos na cabeça.

A chuva tinha parado há horas. O “barulinho de chuva” era uma cascata não planejada descendo pela lâmpada do escritório. Com a chuva veio um vento que arrancou meia dúzia de telhas e foi o suficiente pra transformar o chão de madeira do cômodo num lindo espelho d’água.

Todo mundo de pé. Afinal dormir depois das 4:30 da manhã no sábado é coisa de vagabundo.

Todos os panos da casa foram destacados para drenar uns 30 litros de água.

Enxuga-torce-joga-na-privada
– PEDRO, pára de sapatear na água!
– Á-UA! Hihihi.
– Sim, filho é água
– hihihi
– BUSCA MAIS PANO, FLÁVIO!
– Forra ali! Tá indo pra baixo do guarda-roupa
– PEDRO! NÃO TOMA A ÁGUA DO BALDE! SUJO!
– SÚ-O!
– Sim, sujo.
– Á-UA.
– Água, filho… PANO!!!!!

E a cachoeira descendo livre no meio do cômodo.

Terminada a missão, lá foi o papai pra cima da lage avaliar o estrago.
Nosso telhado tem uns 8 metros de altura e as telhas são lisas como piso de cozinha. Lá em cima consegui trocar e arrumar as telhas por baixo, entre a lage e o madeiramento, sem pisar no telhado. Seria mais fácil e rápido ter saído e trabalhado em cima da casa, mas aí entrou um pensamento interessante.

Quase todo homem é meio cabeça de bagre nessas horas e resolve o problema do jeito mais fácil mesmo que seja uma falta completa de juízo. Lá em cima olhei a altura da bagaça e avaliei que era arriscado demais. O engraçado é que o pensamento automático não foi.

“Caceta, se eu cair daqui vou morrer, me quebrar, ficar inválido.”

Mas sim

“Caceta, já pensou se o Pedro fica sem pai?”

Pode ser exagero pensar na morte só porque precisou subir na casa. Mas o que é muito interessante é como muda o foco. Eu nunca dei muita moral pra essa conversa de que pais amam o filho mais que a si mesmos. Sinceramente eu achava que ainda gostava mais de mim. Fui supreendido lá em cima pela idéia que um acidente teria uma vítma indireta muito mais importante que a direta.

Desci de lá mais sujo que o Papai Pig depois do campeonato de poça de lama e com alguns cortes novos em virtude de minha impressionante(!) habilidade para manusear telhas quebradas.

É bem provável que o Pedro cresça aqui. Nunca vai imaginar que as telhas mais mal colocadas da casa foram motivo de reflexão sobre amor e vida.

Tá dormindo.
Barulinho de chuva.
Agora vem de fora mesmo.

 

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