O estupro, o bullying e o blog de pai

AVISO: este post é um amontoado de reflexões sobre as quais nem mesmo eu tenho muita certeza do que pensar. Convido ao debate.

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Com o aquecimento do tema “cultura do estupro” e as reflexões sobre criar meninos, achei que precisava dizer algo.

Tenho visto muito cara bacana se ofender com o papo de que todo homem é um estuprador em potencial. Eu entendo os dois lados da moeda.

Assim como não posso negar que a homarada em geral é podre e que não é muito difícil ouvir de amigo coisas como

Aquela balada é massa porque é tudo lotado. Vc sai esfregando a rôla nas minas da fila do banheiro. Tudo vadia.” – Natal de 2015.

Também não é difícil entender a ofensa de quem leva a vida reprovando isso, que já quebrou paradigmas, desconstruiu machismo e de repente é carimbado de estuprador por todas as pessoas engajadas desse mundo.

O esfrega-rôla é indefensável, mas o ofendido eu não posso condenar porque do contrário eu deveria encerrar o blog. Me diz como eu vou endossar que todo homem é um estuprador em potencial se em quase 200 postagens de blog e facebook eu defendo que

homens também podem ser babás
homens também podem ser cuidadores de escolinha
homens devem ter fraldários decentes em seus WCs para trocarem seus meninos e meninas

Não dá. Não dá pra pensar num mundo de homens convivendo com intimidades de criança se considerar que todos são estupradores em potencial. E não percamos tempo querendo separar estuprador de pedófilo porque tecnicamente pode até ter diferença mas não deixaríamos nossas crianças expostas a quaisquer dessas figuras.

Eu acredito em homens evoluídos, capazes de enxergar que temos a responsabilidade da transição. Eu acredito na exceção virando regra pelo exemplo, didaticamente, e por isso eu não posso bancar esse rótulo. Entendo os ofendidos, entendo o rótulo e é tudo que vou dizer sobre isso.

Adiante…

A dificuldade de tomar uma posição coerente sobre o assunto me levou a pensar sobre o momento seguinte na criação do meu menino. Aquele momento em que depois dele ter aprendido em casa tudo sobre consentimento, respeito as pessoas e seus corpos, divisão de tarefas e responsabilidades etc etc etc,  ele vai ter que lidar com um mundo ainda em transição e que não foi educado da mesma forma.

Ele vai sofrer bullying, vai ser taxado de frouxo, de bobo, de lerdo, de mulherzinha que lava a louça e vai ter que desenvolver habilidades talvez bastante precoces pra se livrar de toda a chateação.

Temos que educar nossos meninos para serem firmes. Precisarão ter personalidade, talvez sejam o “bobo da turma” simplesmente por respeitarem as meninas. Temos que ser seus confidentes, ajudá-los com os grilos, fazê-los entender porque fazem tudo certo e sofrem, são excluídos, são mal vistos pela galerinha. Sabe aqueles filmes americanos que o menino bonzinho vive se lascando na mão dos outros porque não é popular? Acho que vai acontecer o mesmo com nossos guris que não “chegam chegando”.
Parece um problema comum de todo pai de adolescente mas aqui o buraco é mais em baixo. Não são questões adolescentes, são grandes questões culturais, ideológicas, complexas refletindo no dia de gente nova demais.

No fim das contas, os meninos vão ser vítimas de… machismo!

A mudança que parte de nós está promovendo colocará um peso grande nos que serão adolescentes quando apenas meio-mundo ou menos já estiver mais evoluído. Parte do peso que as meninas sempre tiveram simplesmente por serem meninas e mais um parte desconhecida, consequencia da mudança.

Isso não me faz pensar em retroceder, não é um post em defesa de como as coisas são. Mas me faz pensar pra quais consequências o Pedro precisa estar preparado. Me faz buscar formas de ensinar como sobreviver num campo de excesso e desrespeito que eu terei feito de tudo pra mostrar que era inadmissível.

Pergunta que vai me tirar o sono: como prepará-lo pra respeitar tudo e ser desrespeitado em troca?

Não sei.

Atualização (31/03): um post muito interessante sobre esse assunto http://brasil.elpais.com/brasil/2016/05/09/internacional/1462812457_321536.html.

Obrigado, imãzinha 🙂

bullying

5 Replies to “O estupro, o bullying e o blog de pai”

  1. Texto maravilhoso. Parabéns!!
    Penso nas mesmas questões levantadas por você. Já conversei na escolinha e estamos pensando em ações para conscientizar os pais, primeiramente, sobre o assunto e também cada criancinha que deve fazer sua parte.
    Vamos criar gerações melhores!!

  2. Fantástico! Adoro seus textos. Nesse exato momento estou imersa nessas ideias, nesse tema, também com um filho de 2 anos para transformar em homem de bem. Vou te fazer uma sugestão de documentário: The mask you live in, Netflix. Ecoa o que está no seu texto. Um abraço!!!

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