Em marmanjo nu, filho meu não toca

[AVISO: se for reproduzir o texto abaixo em algum lugar, reproduza na íntegra. NÃO AUTORIZO qualquer reprodução parcial.]

Mais uma vez vejo o assunto “filhos, crianças, educação” pegar fogo nas redes sociais de um jeito nada legal. Tropas de choque tomaram a internet nos últimos dias falando do tal peladão do MAM e das crianças que foram incentivadas a tocá-lo.

Vejo esse assunto populando rodas inflamadas a discorrer sobre o que é ou não é arte. Falam sobre moral, sobre o fim dos tempos, sobre padrões de sinalização e controle de acesso em museus, sobre até onde uma exposição pode ir e o que estamos fazendo com nossas crianças.

Entretanto tenho ouvido pouco sobre o que me interessa nisso tudo: a relação dos pais com os filhos frente a questões delicadas.

Me adiantando, não vou falar sobre o que é arte porque não entendo nada de arte.
Não vou falar sobre o que é pedofilia porque não sou psicólogo nem jurista.
Vou falar apenas sobre ser pai e sobre o que eu gostaria de sair dizendo por aí aos berros.

Ninguém se mete em como um pai e uma mãe apresenta o mundo aos seus filhos! Acabou.

Eu não tenho o menor interesse em ver a tal obra. Muito menos tenho interesse em levar meus pequenos lá. Pro meu jeito de educar, não tem a menor necessidade de botá-los em contato com um peladão desconhecido. Mas, de novo, ninguém pode se meter no que um pai ou mãe está fazendo com seu filho para educá-lo. Somente aquele que cria uma criança em tempo integral tem o contexto exato do que precisa ser mostrado pra ela e isso não precisa fazer sentido pra mais ninguém.

Você pode achar errado
Você pode achar feio
Você pode achar que é um absurdo
Você pode achar que é pecado
Você pode achar que é crime (Neste caso chame a polícia!).

Mas não se meta e não encha o saco. Acredite: você realmente não tem nada com isso. Passei dos limites? Então vou contar uma coisa:

Perto da minha casa tem algumas igrejas. Uma delas é daquela que alguém vai la na frente e dá graças aos berros, num jeito delirante de orar que a pessoa parece realmente entrar num transe. Não é raro ver crianças de 6 ou 7 anos nesse papel e quando eu vejo isso fico com muita dó. Na minha cabeça essa criança não vai ser um adulto legal. E o que faço? Sigo meu caminho. Aquela criança não foi atraída praquele altar por um pastor safadão que estava de tocaia. Ela foi levada ali por um pai ou uma mãe crentes, pros quais isso faz todo sentido. Que fiquem em paz apesar de eu achar que estão fazendo merda. Não é da minha conta. Tem um mundão inteiro aí fora de coisas que a gente não entende, não participa e não imagina o que tem de bom e de ruim.

“Ah, mas tem pai que é doido!”

Todos sabemos que há pais que são doentes, maníacos, perturbados, criminosos. Quando achar que é o caso, não pestaneje: chame a polícia! Denuncie ao ministério público! Faça isso sem demora pois se você estiver certo, uma criança pode ser salva de algo terrível. Só tenha em mente que nesse caso não é você quem decide, ok Batman? Nada de ficar por aí criminalizando pais que não criam seus filhos como VOCẼ gostaria porque o seu jeito de educar provavelmente é uma grande bosta pra muita gente.

Quantas vezes você se deparou com um palpiteiro que sabia exatamente como você devia criar seu pequeno? É foda né? Aquela pessoa sem contexto que não sabe o que vc passa, que não sabe do seu dia, que não entende no que você trabalha pra que aquela criança seja legal. Pra piorar o palpiteiro ainda é uma topeira a quem não adianta explicar nada.

Não seja essa pessoa. O seu jeito certo é só seu. Nao seja arrogante a ponto de achar que suas crenças e métodos são ideais. Tem um monte de famílias lá do outro lado do mundo que não comem o que vc come, não louvam o seu deus, não ensinam as mesmas coisas a seus filhos e ainda assim são gente boa e honesta que assim como você está se virando do avesso pra dar uma vida que presta a seus decendentes. Se você for lá no país deles vai respeitar isso, então porque não respeita seu vizinho diferentão? Fica aí enchendo seu linkedin com “pensar fora da caixa” e quando fecha a porta de casa parece um fundamentalista. Bleh!

Meu maior apavoro sobre isso é que as coisas se afunilem pra um “jeito certo” que eu não aceito e que não me permita apresentar a meus filhos o que eu acho que está na hora. Porque esses caras fazendo patrulha pra fechar o MAM tão super tranquilos com isso ja que nunca vão lá. Mas e quando resolverem patrulhar algo que faz sentido pra eles? E quando meterem o dedo na cara de cada um dizendo que todo aquele certo agora tá errado?

Não vamos ajudar a sociedade ir pra esse lado. Vamos apenas respeitar a casa dos outros e aceitar que não somos capazes de assimilar todos os jeitos certos que há por aí.

Criar filhos é defender uma fortaleza todo santo dia. Por que mesmo estamos olhando tanto pra fortaleza dos outros?

 

Praia de Massarandupió – BA Imagem: Eduardo Knapp/Folhapress

 

 

 

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